sinta

rationem:

“Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…”

Alphonsus de Guimaraens 

Roupa surrada, barba mal feita, lucidez embriagada por martíni. Blusa aberta, pés descalços e a vida por cuidar. Ele estava entre o sim e o não, deveria optar, por alguma razão? Entrarei no carro surrupiarei canções perdidas nas ruas do silêncio. Talvez elas embalem a perdição desses becos, e sejam a trilha sonora para essa noite que foi capaz de jogar a um barranco antes mesmo de ela ter começado. Talvez as várias mulheres fáceis conseguissem preencher parte de um vazio existencial, porque os livros o haviam abandonado, e o rádio? Estava sem pilhas haviam meses.
Você quer escrever. Certo, mas você quer escrever? Ou todo mundo te cobra e você acha que tem que escrever? Sei que não é simplório assim, e tem mil coisas outras envolvidas nisso. Mas de repente você pode estar confuso porque fica todo mundo te cobrando, como é que é, e a sua obra? Zézim, você só tem que escrever se isso vier de dentro pra fora, caso contrário não vai prestar, eu tenho certeza, você poderá enganar a alguns, mas não enganaria a si e, portanto, não preencheria esse oco. Não tem demônio nenhum se interpondo entre você e a máquina. O que tem é uma questão de honestidade básica. Essa perguntinha: você quer mesmo escrever? Isolando as cobranças, você continua querendo? Então vai, remexe fundo (…) Tira sangue com as unhas. E não importa a forma, não importa a “função social”, nem nada, não importa que, a princípio, seja apenas uma espécie de auto-exorcismo. Mas tem que sangrar a-bun-dan-te-men-te. Você não está com medo dessa entrega? Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora. A única recompensa é aquilo que Laing diz que é a única coisa que pode nos salvar da loucura, do suicídio, da auto-anulação: um sentimento de glória interior. Essa expressão é fundamental na minha vida.
Caio Fernando Abreu  (via que-seja-leve)
Da janela do meu quarto do Hospital Emílio Ribas, na avenida Doutor Arnaldo, em São Paulo, eu via as pessoas caminhando, de bermudas, tomando onibus, entrando num, e eu dizia: meu deus, que luxo que é viver, que coisa maravilhosa que é poder andar na rua, como a vida é preciosa e frágil. E começou a me dar uma pena da condição humana, e eu enviava amor para as pessoas que via pela janela, enviava amor e comecei a receber amor de volta, como num jogo de tênis.
Caio Fernando Abreu quando estava hospitalizado e tentando se conformar com sua doença.  (via thatismyspot)

desprezivel:

Curta filmado sobre um telhado em Londres durante um único dia. Parte do filme “Crave” de Sarah Kane Uma escritora muito talentosa, mas que não conseguiu que o seu trabalho fosse apreciado por muitos até que fosse tarde demais. Ela cometeu suicídio aos 28 anos enforcando-se em um banheiro no London’s King’s College Hospital. 

Vale a pena ver, sério mesmo.

meusmelhoresbeijos:

A questão é que “Gabriela G” não rende reblog pra “tumblr famoso”, Caio Fernando Abreu sim!

meusmelhoresbeijos:

A questão é que “Gabriela G” não rende reblog pra “tumblr famoso”, Caio Fernando Abreu sim!

Tô achando tudo uma merda, um porre. Desde tardes de segunda-feira a madrugadas de sábado. Tô vendo peso demais onde só tem gente pura, de tanto que vi gente pura onde o espírito era podre. Não há alimento que me satisfaça; não há movimento que não me assuste. Não há presença que me acalme. O choro não sai: não há lágrimas. Mas há ódio e sarcasmo em cada palavra cuspida. O coração palpita o tempo todo, pedindo socorro, querendo fugir do corpo. O cérebro mal funciona. As mãos mal conseguem segurar um copo de vidro sem espalhar água por todo o azulejo da cozinha. E é assim que tem sido; com sonhos mal dormidos, sapos engolidos e desprezo pelo reflexo do espelho.

Bianca Landi

(via pequenacolombina)

terrorismo-poetico:

VEJAM O VÍDEO ATÉ O FINAL, POR FAVOR. É tão lindo.

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
Vinicius de Moraes, “Ausência”. (via outonodemim)